Coluna dos Deuses - Prosa


Prosa é por aqui

3 de Janeiro de 2012

O Arquipélago da Insónia - António Lobo Antunes





Momento. Assim me faço amigo de quem nunca me apertou a mão - Tão afastado, tão dentro de mim






• os livros são uma paisagem interior
• temos que encher os livros de silêncios
• e o leitor ler as palavras que não estão lá escritas e no entanto estão lá
• é uma paisagem interior
• a angústia do homem no tempo
• são as vozes sem nome que temos dentro de nós
• uma procura de si
• uma procura da natureza do homem
• ouvir com os olhos
• ouvir com a voz
• o livro é feito de palavras
• e se os grandes livros não serão todos livros doentes
• não sei, não sei explicar
• quando a mão é feliz o livro é uma alegria para o leitor
• quando não estou a escrever não penso em nada
• escrever é muito muito difícil
• a literatura é uma coisa muito complicada
• um deserto com vozes
• reduzir as coisas à pedra que somos feitos
• o livro trata do que vai escrito nele
• a nossa vida é um pergunta perpétua
• escrever é uma procura constante
• o não chegar é o que faz a nossa grandeza
• hei-de ser um principiante até morrer



24 de Outubro de 2011

diálogo entre um cego e um surdo









- as palavras dizem?
- dizem
quer dizer
umas vezes dizem
outras…
dizem coisa nenhuma
melhor dizendo
nada acrescentam
- não?
- isto é:
por nada dizer
dizem
- ah!



18 de Abril de 2011

lápis e alma (Lopes’ José Luis)





Vânia Lopez




Sou uma pessoa simples, ainda sem saber se pintora que escreve ou escritora que pinta. Inquieta sigo procurando por algo e na verdade fico com a busca sem pretensão de encontrar. Gosto da procura e do aprendizado que ela conduz...


lápis e alma


atrás da sua cintura
o céu é pintado
como se estivesse de férias
(parece quase uma fotografia)


bandeiras voando
coloco os olhos no horizonte
o sol segue nossos passos
(para onde possa respirar)


numa caixa de lápis de cor
desenho tua alma
num céu sem estrelas
(você é toda cor)


basta seu sorriso
com meia xícara de açúcar
(atravesso abris)


no ventre da tua mão...

*



Minha amiga Vânia dedicou este poema aos meus quarenta e nove anos, mais do que um poema é o carinho da sua amizade que recebo com todo o prazer. Uma bonita prenda, obrigado minha amiga, obrigado mesmo



31 de Março de 2011

Ciclo das pedras









Rolam pedras
Rolam sem parar
Rolam sem ninguém as ver
Rolam agitadas donas de montanhas
Mas rolam
Rolam
Todos os dias rolam
Rolam inchadas
Rolam papéis
Rolam livros
Rolam prosas
Rolam rimas
Rolam até palavrões
Mas rolam
Rolam
Todos os dias rolam
Rolam paridas
Rolam inveja
Rolam cobiça
Rolam piadas
Rolam maldades
Mas rolam
Rolam
Todos os dias rolam
Rolam quadradas
Rolam cegas
Rolam porque o outro rola
Rolam por rolar as pedras
Rolam arrogantes
Rolam uma
Rolam duas
Rolam três
Rolam de três em três
Rolam cem
Rolam mil e três
Rolam de quando em vez


Mas rolam
Rolam
Todos os dias rolam
Rolam do rolar as donas
De tanto rolar
Apagaram as montanhas
As nuvens
As árvores
Os lagos
Os rios
Os peixes
A terra

Mas rolam
Rolam
Todos os dias rolam
Mataram os olhos
Os ouvidos
As mãos
A boca
O nariz
O coração
Como pedra rola
Devagar
Mais devagar
Mas ainda rola
Rola
Só sabe rolar
Cada vez mais só
No seu rolar
Sem sol
Sem paixão
Rola como palavra inútil
Um dia
Deixa de ser pedra
Deixa de rolar
Deixa de viver
Restará pó



7 de Janeiro de 2011

Aquário









Os meus olhos encheram-se de peixes. Eugénio, amarelo, explícito na sensibilidade. Camões, nos olhos a sua marca. Excêntrico, chama-se Dali, são cores. Torga, veste-se de negro, talvez saiba da morte. Pessoa, sempre ele, um vira casacas, à noite Caeiro. Eu, sou aquário, de ascendente (hoje), e só depois de Carneiro.



4 de Dezembro de 2010

Indiferença mórbida









No meu pinheiro de Natal
Falta uma bola

A árvore morta
Não nota a falta!

Este ano vou comprar um pinheiro mais pequeno



15 de Novembro de 2010

Perguntou-me se o podia postar no seu blogue




Joan Miró i Ferrà escultor e pintor surrealista catalão.



- Fiz um comentário a uma amiga, a Vânia perguntou-me se o podia postar no seu blogue.


claro que sim!
mas tenho que dar um arranjo,
passar um creme de limpeza,
depois,
deito uma base
dou a tonalidade de todos os sorrisos do mundo
e para terminar
um leve toque de pintura*
de seguida
pode partir à conquista de amizades,
pode até ser estrela,
basta que todos os olhos
saibam fazer acontecer um sonho,
uma esperança,
um novo dia,
um novo olhar,
numa noite de solidão.
é aqui,
nas noites escuras
que o seu brilho é mais notado.
é aqui,
que ela descobre que não está nunca sozinha.
tem o teu olhar.

basta o teu olhar.


* Título de uma música do Rui Veloso – Saiu para a rua